Como deixei de ser um animal

28/07/2015 - THAIS BILENKY DE NOVA YORK (Folha - edição impressa)

O jornalista Dan Harris era ríspido, usava cocaína e ecstasy, criava inimizades no trabalho. Após um ataque de pânico ao vivo, virou defensor da busca por paz espiritual

Depois de cobrir as guerras do Afeganistão, Palestina e Iraque, se viciar em drogas, criar inimizades no trabalho, ter um ataque de pânico transmitido ao vivo em rede nacional, o jornalista americano Dan Harris, 43, não teve um ataque do coração nem decidiu virar monge.

Ele continuou na profissão, ascendeu na rede de televisão ABC, tornando-se um de seus principais apresentadores, mas fez um bico em outro ramo. Virou um defensor e marqueteiro de um estilo de vida mais zen.

Harris lançou o livro "10% Mais Feliz" em dezembro nos Estados Unidos e chegou a ser o mais vendido na lista do "New York Times". Será comercializado em 18 países, inclusive no Brasil (ed. Sextante). é onde foi lançado no início de julho. Sua mensagem é clara: a espiritualidade o salvou do "babaca" que ele era.

Incrédulo, ríspido e ambicioso, Harris não era o tipo de sujeito que procuraria ajuda espiritual para se tornar um ser humano melhor.

Mas foi um de seus vícios, o de trabalhar, que acabou por guiá-lo na busca pelo equilíbrio entre aspirações mundanas e uma paz espiritual.

Depois de uma cobertura de guerra mal avaliada, Harris foi incumbido por seu editor a fazer reportagens sobre religião. Ele, evidentemente, não se interessava pelo tema, mas um pastor semeou uma pitadinha de curiosidade, um guru levantou outra lebre e, de repente, Harris se viu imerso.

Entrevistou os gurus da espiritualidade Dalai Lama, Eckhart Tolle e Deepak Chopra, fez um retiro de dez dias na Califórnia e, no final, estava saudando Buda. (Ele não se tornou religioso, mas de ateu passou a agnóstico.)

O jornalista passou a defender a meditação inclusive em sua vertente popular, vendida em livrarias e cursos rápidos de autoajuda. Quem é atraído por um motivo, afirma, pode continuar por outro. Foi o seu caso.

"Eu acho que todo mundo pode ser mais feliz", disse à Folha em sua sala, na sede da ABC, em Nova York. Mais do que isso: "Todo mundo pode ser melhor no que faz", acredita.

Em sua missão de secularizar a meditação, reverter o que considera o "sério problema de marketing" e atrair pessoas tão incrédulas quanto ele mesmo já foi, Harris tem uma definição peculiar da prática.

"Consiste, basicamente, em se sentar por cinco ou dez minutos, focar o pensamento em uma coisa só, em geral na sua respiração, se perder, pensar no almoço ou em um filme e voltar a se concentrar de novo."

Os benefícios são poderosos. Ele lista.

1. Foco. "A gente é bombardeado por mensagens, e-mails, tuítes, atualizações o dia inteiro. A meditação treina a mente a ficar se concentrar mais e por mais tempo."

2. Calma. "Você dedicar entre cinco e dez minutos por dia para ficar em silêncio num mundo barulhento pode te fazer um pouco menos maluco."

3. Atenção plena. "Cientificamente, somos classificados como Homo sapiens sapiens. A gente pensa e sabe que pensa. Só que o segundo sapiens sumiu. Por isso, estamos comendo sem fome, checando e-mails no meio de uma conversa com outros seres humanos, perdendo o controle da situação", afirma o jornalista.

"Desenvolver a atenção plena é muito útil, pode te impedir de fazer coisas estúpidas como ser grosso com um colega ou com sua mulher, ou não prestar atenção numa reunião importante."

No final dos anos 1970, o professor Jon Kabat-Zinn criou a técnica da "atenção plena" (em inglês, "mindfulness"), como forma de secularizar a meditação e possibilitar o estudo de seus benefícios para a saúde.

A partir de então, cientistas descobriram que a prática pode reduzir a pressão arterial, fortalecer o sistema imunológico, estimular o cérebro a produzir a sensação de bem-estar e até reduzir o estresse.

Executivos, celebridades e atletas passaram a aderir, fazendo com que meditar virasse moda, comemora Harris.

O jornalista, contudo, mesmo depois de sua epifania, ainda não abandonou todo o seu ceticismo.

Num ato quase herege, decidiu contabilizar o quanto a meditação pode fazer alguém mais feliz. A conclusão dá nome ao seu livro. "Ou talvez muito mais."


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